2005-08-04
Sessão Pública de Apresentação da Candidatura na Quinta do Conde (II)
Explico em primeiro lugar a minha presença aqui esta noite.
Estou aqui porque penso que só com uma intensa troca de ideias, opiniões e reflexões, só com a participação de todos, se consegue elaborar, desenvolver e consolidar acções alternativas e complementares que possam contribuir para a melhoria efectiva das condições e da qualidade de vida das pessoas.
Estou aqui porque acredito que o Bloco de Esquerda é esse espaço, onde o debate e a variedade de opiniões e ideias são valorizados. Estou aqui porque considero que uma candidatura do Bloco de Esquerda às autárquicas de Sesimbra faz todo o sentido. Estou aqui ainda por não ter dúvidas sobre a capacidade e o empenho dos candidatos desta lista, de inventar, de criar e de levar para a frente a solução dos problemas que nos afectam a todos, de contribuir para a construção daquilo que todos nós desejamos: um lugar melhor para viver.
Penso que a vontade que trás as pessoas à Quinta do Conde é a de poderem ter um espaço seu, sossegado, livre dos constrangimentos de uma grande cidade, um espaço onde as crianças ainda possam ir brincar para a rua. Um espaço mais próximo do campo. Foram essas as razões que me trouxeram até cá há cinco anos atrás. Aliás, numa conversa entre amigos, há tempos, foram essas as vantagens que salientei. Tinha o intuito de os trazer para junto de mim. Queria convencê-los a comprar uma casa aqui, na Quinta do Conde. Estou certa que muitos de vocês já passaram por esse dilema. Escusado será, por isso, de vos dizer que a conversa não correu muito bem. De facto, em termos de qualidade de vida, as desvantagens de viver aqui ainda pesam muito na decisão final.
Todos os dias, para sair ou regressar a casa tenho de atravessar estradas em terra batida que são autênticas zonas de guerra, principalmente no Inverno. Faço uma autêntica prova diária de obstáculos entre buracos e crateras. Todos os dias os meus olhos se ferem no desordenamento caótico em que esta Vila mergulhou. Saltam à vista as fiadas inteiras de casas sem nenhum espaço verde, com lixo e entulho por todo o lado, com construções abandonadas a meio durante anos a fio, com prédios de apartamentos semeados entre vivendas. E as consequências de uma construção caótica têm também outros efeitos prolongados. Quem ainda não reparou que as matas ou aquilo que delas resta são o receptáculo privilegiado dos entulhos das obras?
Penso contudo, que a qualidade de vida não se traduz apenas na resolução de problemas complexos, questões que resultam de uma história feita de «enganos» e de construções clandestinas. Faz-se também de coisas simples, que podem facilmente ser resolvidas com pouco esforço e alguma organização.
Estou a falar, por exemplo, da falta de transportes urbanos que liguem zonas habitacionais a comerciais. Todos sabemos que para nos deslocarmos dentro da Quinta do Conde, que não é nada pequena, temos de recorrer às carreiras da SulFertagus ou da Setubalense e pagar a mesma tarifa que pagaríamos para sair da freguesia!
Estou a falar, também, da falta de abrigos nas paragens dos autocarros. Não sei se já repararam que a Quinta do Conde podia concorrer, com grandes hipóteses de ganhar, a um qualquer prémio do bizarro, pois é o único sítio do mundo, penso eu, em que só chove e só faz sol de um lado da estrada! Existem abrigos no sentido Quinta do Conde/Lisboa mas não no inverso.
Estou a falar da falta de cestos de papéis junto das paragens e um pouco por toda a área da freguesia. Já agora, saliento a importância e utilidade da colocação de contentores de lixo individuais, à semelhança do que tem vindo a acontecer noutros municípios. Tornava todos mais responsáveis e resolvia o problema da falta de limpeza dos contentores municipais e do cheiro nauseabundo que impera particularmente no Verão!
Estou a falar de ruas que já estão pavimentadas há anos mas continuam inexplicavelmente há espera de passeios, como por exemplo a Avenida da Liberdade ou a Rua 25 de Abril. Estou a falar, ainda, da limpeza urgente das matas, da sua reabilitação e defesa!
Mas, para quem vive na Quinta do Conde, as desvantagens, infelizmente, não ficam por aqui. Nós lá em casa somos SMF há cinco anos (para quem não sabe, «sem médico de família»). Mais de metade dos Quinta Condenses encontra-se na nossa situação. O centro de saúde, que é provisório há 20 anos, não cobre de forma alguma as necessidades da população. É urgente um novo centro de saúde ou pelo menos novas instalações. Sem querer ser exaustiva, tenho de acrescentar que não temos onde praticar desporto. Que não temos espaços de lazer e diversão. Então o que nos resta? Bem... sempre se pode dar uma voltinha às lojas do Modelo, vir até ao Centro Comercial ou admirar o novo telhado à Portuguesa da Junta de Freguesia... Sem querer menorizar a utilidade destes locais, penso que não chega, penso que merecemos mais.
E o mais grave desta situação é que até existem algumas infraestruturas e meios técnicos e humanos. O que parece não existir é vontade política para apoiar projectos e iniciativas culturais e desportivas. A prova do que estou a falar, é por exemplo, a existência desta sala onde hoje nos encontramos. Ela permanece encerrada há cerca de dois anos. A Câmara não tem mostrado interesse nem em comprá-la e aproveitá-la, nem em apoiar a exibição de cinema por parte de particulares. Pergunto-me, quantos outros projectos culturais ou desportivos existirão por aí na cabeça e nas intenções dos cidadãos da Quinta do Conde que não singram por não terem espaço nem apoios? Pergunto-me se não será essa também uma das missões de uma Junta da Freguesia?
Não quero com toda esta conversa deixar a impressão de que todos estes problemas são fáceis e simples de resolver. O cenário não se alterará num estalar de dedos ou num abrir e fechar de olhos. A luta e a participação democrática das várias associações são peças importantes neste processo e o apoio do Bloco de Esquerda é, quanto a mim, fundamental. A persistência do nosso olhar crítico e a nossa luta constante por infraestruturas e equipamentos essenciais ao funcionamento e desenvolvimento da sociedade são a nossa missão. Não podemos nem queremos cruzar os braços face às inúmeras carências desta Vila, estas e muitas outras que não pude mencionar. Por isso, e para terminar, repito: só a participação de todos pode transformar esta terra de mero dormitório, num lugar aprazível para ver os nossos filhos crescer, em suma, num lugar melhor para viver.
É por tudo isto que estamos aqui.