2005-09-25

 

Programa para a Câmara Municipal de Sesimbra

 
Carlos Macedo, Candidato à Câmara Municipal de Sesimbra
Sesimbra com outros olhos

Sesimbra atingiu o 25 de Abril com uma comunidade tradicional estruturada em torno da pesca, complementada com uma agricultura de subsistência e um fluxo turístico de carácter familiar, de pequena escala, compatível com as suas características estruturais, paisagísticas e culturais. É um período que se segue a décadas de penúria e baixo nível de vida da maioria da população, onde as infra-estruturas de saúde, ensino, transportes, comunicações, de desporto e lazer não existiam ou ficavam muito aquém da média do país.

A Revolução de 1974 democratizou as estruturas políticas e associativas do concelho e abriu caminho para a subida do nível de vida da população e criação (por iniciativa do governo central) de algumas infra-estruturas de transportes e comunicações, administrativas e de ensino. Porém, algumas dessas melhorias, que quebraram o isolamento de Sesimbra, contemporâneas da massificação do transporte individual privado e da criação de acessibilidades, introduziram novos problemas que a actual geração de autarcas e dirigentes locais não foi capaz de enfrentar. Um fluxo turístico indiferenciado, aliado a um desproporcionado mercado de segundas habitações, acentuou o desequilíbrio entre sazonalidade, baixo nível de desenvolvimento e limitação tradicional de infra-estruturas. Mais tarde, a diminuição das oportunidades de pesca, que viria a fazer-se sentir de forma dramática, em conjunto com a evolução desfavorável dos grandes centros industriais da Península de Setúbal, ajudou a introduzir elementos de uma crise social estrutural e de indefinição estratégica que hoje se afirmam com toda a plenitude e que ameaçam a própria existência de Sesimbra enquanto comunidade independente e autónoma.

Paralelamente, nos últimos trinta anos verificou-se, também, o crescimento muito rápido e de raiz de um núcleo com características de periferia suburbana e de dormitório localizado na freguesia da Quinta do Conde, que se expandiu sem quaisquer infra-estruturas e sem articulação com o restante concelho e que, portanto, apresenta problemas graves de desenraizamento e desigualdade social e cultural, de desordenamento do território, de identidade e de desqualificação completamente diferentes da restante comunidade sesimbrense.

É, neste contexto, que se afigura urgente introduzir uma outra visão e uma outra estratégia de desenvolvimento, compatível com as características muito especiais e sensíveis da maioria do concelho de Sesimbra, que gere actividades económicas relevantes e emprego muito qualificado para as suas novas gerações, fixe a população tradicional da Vila e das aldeias e integre aquele segmento de população recente num mesmo projecto, evitando a destruição absurda de activos de elevado valor ambiental, histórico e patrimonial, classificados a nível internacional e, muitas vezes, parte integrante de uma das mais emblemáticas Zonas Protegidas como é o Parque Natural da Arrábida.

Essa estratégia implica a melhoria e a diferenciação generalizada das três grandes vertentes que sustentam a vida económica e social do concelho de Sesimbra, a saber: a pesca, a indústria turística ambiental, cultural e ecológica e alguma agricultura ligada a segmentos de produtos tradicionais locais e biológicos. Para que tudo isto seja viável é absolutamente indispensável fazer um forte investimento na criação das infra-estruturas em falta, na revitalização cultural e na valorização do rico património histórico e na correcção dos erros da expansão urbanística irracional.

1. A Primeira Prioridade: Criação Das Infraestruturas Fundamentais

Trinta anos passados Sesimbra continua a não ter um Hospital ou Centros de Saúde minimamente qualificados nas principais freguesias, a não completar a rede de saneamento básico, a não ter um Centro Cultural nem uma rede museológica digna do seu espólio, nem um sistema de transportes públicos articulado com uma rede viária e de parques de estacionamento também públicos, nem Piscinas Municipais, nem zonas verdes urbanas, nem parques infantis. Sesimbra é uma terra invulgarmente desqualificada no contexto nacional no que respeita a instrumentos essenciais, sem os quais nunca conseguirá desenvolver-se e que, na sua maioria, deveriam ter sido criadas com o impulso da autarquia.

O Bloco de Esquerda defende:

2. Recuperar A Vila E As Aldeias, Qualificar A Quinta Do Conde

Nas últimas décadas e à revelia de todos os balanços críticos em relação a experiências de crescimento de localidades litorais de tradição piscatória, Sesimbra foi fortemente afectada, quer em termos de descaracterização da Vila e das aldeias, quer pela actividade desagregadora de pedreiras e areeiros, quer pelo desordenamento e crescimento urbano despropositados e especulativos. Apesar de não ter atingido o grau de desfiguração e destruição paisagística e ambiental de outras localidades litorais, os projectos em carteira e um certo entendimento errado do desenvolvimento económico criarão as condições para que se atinja um grau de destruição dos seus activos fundamentais inevitavelmente empobrecedor e insustentável.

O Bloco de Esquerda defende:

3. Fortalecimento Da Pesca, Actividade Económica Estruturante Da Identidade Do Concelho De Sesimbra

A pesca é uma actividade económica fundadora da identidade do concelho de Sesimbra, ela criou uma comunidade, uma cultura e uma determinada relação com a natureza que não podem ser destruídas. Apesar das dificuldades e de algumas alterações inevitáveis resultantes das necessidades de preservação internacional do pescado, esta actividade económica não desaparecerá se forem adoptadas as medidas necessárias. Os pescadores e as associações profissionais deste sector têm de se reconverter, adaptando-se ao enquadramento económico e competitivo nacional e internacional, encontrando as formas de organização mais adequadas, os segmentos do pescado mais ajustados às suas potencialidades e qualificando todos os seus agentes

O Bloco de Esquerda defende:

4. Turismo Ambiental E Cultural Motor Do Crescimento Económico

A ausência de actividades económicas relevantes no concelho tem obrigado a população mais qualificada (nomeadamente os jovens) a sair em busca de oportunidades de emprego e de realização profissional. Se essa tendência se mantiver por muito tempo o concelho de Sesimbra perderá a sua independência e identidade, transformar-se-á numa periferia suburbana pouco desenvolvida, descaracterizada e empobrecida, e não resistirá a um processo inevitável de desertificação e envelhecimento. O actual modelo de “turismo residencial” (a designação inscrita no PDM para a construção desenfreada de segundas habitações) só acentua estas tendências negativas, porque expulsa a população tradicional pela via da especulação imobiliária e anula a possibilidade de construir uma verdadeira indústria turística

O Bloco de Esquerda defende:

5. A Cultura É A Base De Sustentação Da Estratégia De Desenvolvimento

Não só porque uma parcela substancial do seu território é parte integrante do Parque Natural da Arrábida e, por isso, é um activo de elevado valor ambiental e cultural, ou porque tem uma longa história citada pelos maiores escritores, historiadores e personalidades de cultura deste país, ou porque as artes da pesca criaram um vasto espólio de saberes, locais e instrumentos, mas também porque é um concelho onde sempre tiveram lugar de forma muito participada as suas actividades, tradições e criadores, Sesimbra só pode desenvolver-se se souber aproveitar a enorme riqueza do seu vasto património. Por outro lado, a ausência de uma adequada política cultural que estimule a formação da juventude é, em parte, responsável por comportamentos de risco que fazem de Sesimbra um dos concelhos com maior taxa de incidência de Sida, a que o consumo de álcool se inicie, em muitos casos, nos primeiros anos da adolescência e a uma preocupante desvalorização da cultura como meio de desenvolvimento pessoal e social.

O Bloco de Esquerda propõe:


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